Mostrando postagens com marcador Segunda versão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Segunda versão. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Segunda Versão: O Tibete não é tudo isso - SLAVOJ ZIZEK

E se aqueles que se preocupam com a falta de democracia na China estiverem na realidade preocupados com o desenvolvimento acelerado do país?

As notícias publicadas em toda a mídia nos impõem uma imagem determinada que é mais ou menos como segue. A República Popular da China, que, nos idos de 1949, ocupou ilegalmente o Tibete, durante décadas promoveu a destruição brutal e sistemática não apenas da religião tibetana, mas também da própria identidade dos tibetanos como povo livre. Os protestos recentes do povo tibetano contra a ocupação chinesa foram novamente sufocados com força policial e militar bruta.Como a China está organizando os Jogos Olímpicos de 2008, é dever de todos nós que amamos a democracia e a liberdade pressionarmos a China para devolver aos tibetanos aquilo que ela lhes roubou; não se pode permitir que um país que possui um histórico tão deficiente em matéria de direitos humanos passe uma mão de cal sobre sua imagem com a ajuda do nobre espetáculo olímpico.O que farão nossos governos? Vão ceder ao pragmatismo econômico, como de costume, ou encontrarão a força necessária para colocar nossos mais elevados valores éticos e políticos acima dos interesses econômicos de curto prazo?Embora a atividade chinesa no Tibete sem dúvida tenha incluído muitos atos de destruição e terror assassino, existem muitos aspectos dela que destoam dessa imagem simplista de “mocinhos versus vilões”.Enumero, a seguir, nove pontos a serem mantidos em mente por qualquer pessoa que faça um julgamento sobre os fatos recentes no Tibete.

Poder protetor
1) Não é fato que até 1949 o Tibete era um país independente, que então foi repentinamente ocupado pela China. A história das relações entre eles é longa e complexa, e em muitos momentos a China exerceu o papel de poder protetor. O próprio termo “dalai-lama” é testemunho dessa interação: reúne o “dalai” (oceano) mongol e o “bla-ma” tibetano.

2) Antes de 1949, o Tibete não era nenhum Xangri-Lá, mas um país dotado de feudalismo extremamente rígido, miséria (a expectativa média de vida pouco passava dos 30 anos), corrupção endêmica e guerras civis (sendo que a última, entre duas facções monásticas, ocorreu em 1948, quando o Exército Vermelho já batia às portas do país).
Por temer a insatisfação social e a desintegração, a elite governante proibia o desenvolvimento de qualquer tipo de indústria, de modo que cada pedaço de metal usado tinha que ser importado da Índia.Mas isso não impedia a elite de enviar seus filhos para estudar em escolas britânicas na Índia e transferir seus ativos financeiros a bancos britânicos, também na Índia.

3) A Revolução Cultural que devastou os mosteiros tibetanos na década de 1960 não foi simplesmente “importada” dos chineses: na época da Revolução Cultural, menos de cem guardas vermelhos foram ao Tibete, de modo que as turbas de jovens que queimaram mosteiros foram compostas quase exclusivamente de tibetanos.

4) No início dos anos 1950, começou um longo, sistemático e substancial envolvimento da CIA na incitação de distúrbios anti-China no Tibete, de modo que o receio chinês de tentativas externas de desestabilizar o Tibete não era, de modo algum, “irracional”.

5) Como demonstram as imagens veiculadas pela TV, o que está acontecendo agora nas regiões tibetanas já não é mais um protesto “espiritual” pacífico de monges (como o que aconteceu em Mianmar um ano atrás), mas (também) bandos de pessoas matando imigrantes chineses comuns e incendiando suas lojas. Logo, devemos avaliar os protestos tibetanos segundo os mesmos critérios com os quais julgamos outras manifestações violentas: se tibetanos podem atacar imigrantes chineses em seu próprio país, por que os palestinos não podem fazer o mesmo com colonos israelenses na Cisjordânia?

6) É fato que a China fez grandes investimentos no desenvolvimento econômico do Tibete e em sua infra-estrutura, educação, saúde etc. Para explicar em termos simples: apesar de toda a opressão inegável, nunca, em toda sua história, os tibetanos medianos desfrutaram de um padrão de vida comparável ao que têm hoje.

7) Nos últimos anos, a China vem mudando sua estratégia no Tibete: a religião despida de política hoje é tolerada e mesmo apoiada. Mais do que na pura e simples coação militar.Em suma, o que escondem as imagens veiculadas pela mídia de soldados e policiais chineses brutais espalhando o terror entre monges budistas é a muito mais eficaz transformação socioeconômica em estilo americano: dentro de uma ou duas décadas, os tibetanos estarão reduzidos à situação dos indígenas americanos nos EUA.

Parece que os comunistas chineses finalmente entenderam a lição: de que vale o poder opressor de polícias secretas, campos e guardas vermelhos destruindo monumentos antigos, comparado ao poder do capitalismo sem freios, quando se trata de enfraquecer todas as relações sociais tradicionais?

Ideologia “new age”

8) Uma das principais razões por que tantas pessoas no Ocidente tomam parte nos protestos contra a China é de natureza ideológica: o budismo tibetano, habilmente propagado pelo dalai-lama, é um dos pontos de referência da espiritualidade hedonista “new age”, que está rapidamente se convertendo na forma predominante de ideologia nos dias atuais.Nosso fascínio pelo Tibete o converte numa entidade mítica sobre a qual projetamos nossos sonhos. Assim, quando as pessoas lamentam a perda do autêntico modo de vida tibetano, não estão, na verdade, preocupadas com os tibetanos reais.

O que querem dos tibetanos é que sejam autenticamente espirituais por nós, em lugar de nós mesmos o sermos, para continuarmos a jogar nosso desvairado jogo consumista.
O filósofo francês Gilles Deleuze [1925-75] escreveu: “Se você está preso no sonho de outro, está perdido”. Os manifestantes que protestam contra a China estão certos quando contestam o lema olímpico de Pequim, “Um mundo, um sonho”, propondo em lugar disso “um mundo, muitos sonhos”.Mas eles devem tomar consciência de que estão prendendo os tibetanos em seu próprio sonho, que é apenas um entre muitos outros.

9) Para concluir, a dimensão realmente nefasta do que vem acontecendo hoje na China está em outra parte. Diante da atual explosão do capitalismo na China, os analistas freqüentemente indagam quando vai se impor a democracia política, o acompanhamento político “natural” do capitalismo.Essa questão com freqüência assume a forma de outra pergunta: até que ponto o desenvolvimento chinês teria sido mais rápido se fosse acompanhado de democracia política?

Mas será que isso é verdade?Numa entrevista há cerca de dois anos, [o sociólogo] Ralf Dahrendorf vinculou a crescente desconfiança com que a democracia vem sendo vista nos países pós-comunistas do Leste Europeu ao fato de que, após cada mudança revolucionária, a estrada que conduz à nova prosperidade passa por um “vale de lágrimas”.Ou seja, após o colapso do socialismo não se pode passar diretamente para a abundância de uma economia de mercado bem-sucedida: o sistema socialista limitado, porém real, de bem-estar e segurança precisou ser desmontado, e esses primeiros passos são necessariamente dolorosos.

Vale de lágrimas

O mesmo se aplica à Europa Ocidental, onde a passagem do Estado de Bem-Estar Social para a nova economia global envolve renúncias dolorosas, menos segurança e menos atendimento social garantido.

Para Dahrendorf, o problema é resumido pelo fato de que essa dolorosa passagem pelo “vale de lágrimas” dura mais tempo que o período médio entre eleições (democráticas), de modo que é grande a tentação de adiar as transformações difíceis, optando por ganhos eleitorais de curto prazo. Não surpreende que os países mais bem-sucedidos do Terceiro Mundo, em termos econômicos (Taiwan, Coréia do Sul, Chile), tenham adotado a democracia plena só após um período de governo autoritário.

Esse raciocínio não seria o melhor argumento em defesa do caminho chinês em direção ao capitalismo, em oposição à via seguida pela Rússia? Seguindo o caminho percorrido pelo Chile e a Coréia do Sul, os chineses usaram o poder irrestrito do Estado autoritário para controlar os custos sociais da passagem para o capitalismo, desse modo evitando o caos.Em suma, uma combinação esdrúxula de capitalismo e governo comunista, longe de ser uma anomalia ridícula, mostrou ser uma bênção (nem sequer) disfarçada: a China se desenvolveu na velocidade em que o fez não apesar do governo comunista autoritário, mas devido a ele.E se aqueles que se preocupam com a falta de democracia na China estiverem na realidade preocupados com o desenvolvimento acelerado da China, que faz dela a próxima superpotência global, ameaçando a primazia do Ocidente?

Há mesmo um outro paradoxo em ação aqui: e se a prometida segunda etapa democrática que vem após o vale de lágrimas autoritário nunca chegar?É isso, possivelmente, que é tão perturbador na China de hoje: a idéia de que seu capitalismo autoritário talvez não seja apenas um resquício de nosso passado, a repetição do processo de acúmulo capitalista que se desenrolou na Europa entre os séculos 16 e 18, mas sim um sinal do futuro.E se “a combinação agressiva entre o chicote asiático e o mercado acionário europeu” se mostrar economicamente mais eficiente que nosso capitalismo liberal? E se ela assinalar que a democracia, tal como a conhecemos, não é mais condição e motor do desenvolvimento econômico, e sim um obstáculo a ele?

Fonte: Folha

SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia” (Contraponto). Ele escreve na seção “Autores”, do Mais! . Tradução de Clara Allain .

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Segunda Versão: Ricardo Soares sobre o Bernardinho

Nunca vi ninguém ir na contra mão na publicidade que a mídia faz em cima do Bernardinho, o nosso exemplo maior de vitória. tá aqui sujeito corajoso.

Com vocês Ricardo Soares:

"Num post ele manda: ...além de ser a antítese do carioca que seu sotaque não nega Bernardinho é tudo aquilo que eu jamais quis ser. Competitivo, estressado, criador de clichês e frases feitas, metido a bom moço, histérico, sem senso de ridículo e consultor de auto- ajuda e "sucesso pessoal". Enfim , um entojo completo vendido como bem sucedido. Bernardinho , o bobalhão em busca de resultados, é um perfeito garoto -propaganda da cultura de mercado. Pior e mais insosso e patético do que ele só mesmo Roberto Justus essa bolha de vento com cara de incontinência urinária. "
http://todoprosa.blogspot.com/2008/06/bernardinho-mala-oriental.html"

Bernardinho Mala oriental

num outro ele manda...

"Nunca gostei de Bernardinho , técnico da seleção brasileira de vôlei. Até aí morreu Neves visto que milhares de pessoas nesse país o acham o máximo. Chamam-no de vencedor, um realizador ,um guerreiro e outras baboseiras que a mídia triunfalista cola na imagem desse mauricinho narcisista com traços de autoritarismo mais que evidentes. No Brasil vencer - seja a que preço for - é o que interessa. Já que Bernardinho- Mauricinho vence então deixa ele não ter senso de humor, deixa ele regurgitar lições banais de auto- ajuda ,deixa ele gritar,deixa ele posar de imperador do vôlei com aquela expressão seríssima de quem descobriu a cura da Aids. "

link.
Bernardinho essa mala

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Segunda Versão: Ricardo Soares e as Farcs


Eu Chorei vendo algumas imagens do reencontro da Ingrid Betancourt com os seus dois filhos. Até ai não há novidade. Eu acompanhei o caso desde em que ela foi seqüestrada, foi emocionante o desfecho; e como dizia uma amiga eu choro até em inauguração de Supermercado.
Quando soube do ocorrido eu pensei em ir até blog do controverso Ricardo Soares, a voz dissonante do jornalismo brasileiro. Não pude por motivos que também o impediram de postar algo sobre a libertação. Sobre o documentário "Colombianos" assisti trechos na cultura e achei sensacional e espero um dia assisti-lo por completo.

Segue a segunda versão dessa segunda com Ricardo Soares sobre as Farcs.

Por conta de eu ser um refém da incompetência da Telefonica - como disse no post abaixo - estou escrevendo com um dia de atraso sobre a mais célebre refém contemporânea, Ingrid Bettancourt, que na foto acima abraça sua dedicada e amada mãe, a simpática ex- senadora Yolanda Pulecio que conheci há exatamente um ano e me recebeu amavelmente em seu apartamento na zona norte de Bogotá para dar um depoimento para o meu documentário "Colombianos" que foi exibido pela Tv Cultura de São Paulo.Por trás desse sofrido e doloroso abraço entre mãe e filha há um longo caminho, uma longa história que durou 2236 dias do cativeiro em que Ingrid ficou em poder das Farc na selva colombiana se tornando involuntariamente uma peça importante no xadrez geopolítico que envolvia os governos federais localizados em Bogotá, Washington, Paris, Caracas, Quito, La Paz e até Brasília. O leitor e blogueiro Marcelo Henrique disse dois posts abaixo que veio aqui esperando o que eu diria sobre a libertação de Ingrid. A Telefonica impediu que eu viesse antes Marcelo mas, afinal, o que posso dizer ? Digo que fico feliz em ver essa família de novo reunida e que espero sinceramente que essa operação mal explicada -que evidentemente tem o dedo dos americanos -seja um mais um passo em busca da paz que o povo colombiano espera. Não me juntarei ao coro dos contentes que felicita o governo Uribe pois o considero tão responsável por essa guerra cruel quanto as Farc. Sempre repito que a Colômbia vive uma guerra e a mídia sempre aponta os absurdos, desmandos e crimes das Farc mas não os crimes de Uribe e seus paramilitares como os americanos que foram libertados com Ingrid e voltaram correndo pra o colo de Bush antes que tivessem que responder perguntas embaraçosas. Ingrid está livre e eu fico feliz com isso. Mas como disse sua mãe pra mim o ano passado a luta não deveria ser apenas por Ingrid mas por todos os que ainda se encontram reféns da guerrilha e eles ainda são mais de 400. Ações diplomáticas firmes e cobrança à postura belicosa de Uribe podem arrefecer mais ainda os ânimos. Mas é sempre bom saber que a operação colombiana que libertou Ingrid não massacrou ninguém como de praxe. Não confio em Uribe, não confio nos métodos das Farc. Mas há que se dar um voto de confiança a eles. Ou não ?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Segunda Versão: 11'09''01 - Sean Penn

Não encontrei legendado, mas é perfeitamente inteligível mesmo por quem não saiba nada de inglês... um dos melhores filmes do 11'09''01.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Segunda Versão: 11’09’’01 September 11 por Ken Loach

Alguém já disse que somos uma geração privilegiada, por diversos motivos entre eles por vivermos o inicio da queda do Império Americano. De fato, é impossível se esquecer as cenas da queda das torres gêmeas, que se hoje não são prenuncio de uma queda do império, num futuro próximo serão anunciadas como tal, creio eu. A casa tá caindo pros caras. Da queda das torres não só não me esqueço de onde estava, como também me lembro de uma produção francesa, (Sempre os franceses!!!) que assisti um ano depois, mais precisamente em 04-12-2002 às 17 e 30 chamada 11’09’’01 September 11. Trata-se de uma co-produção com 11 diretores espalhados pelo mundo sobre o 11 de Setembro. O filme deste post mostra uma versão do canadense Ken Loach sobre um outro 11 de setembro, o 11 de Setembro de 1973 no Chile. É uma versão para americano nenhum botar defeito. Ainda irei postar os outros na medida em que eu os encontrar disponíveis.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Segunda Versão: Jesus de Saramago

Segunda versão é o espaço para a história não oficial, para relatos, para um ponto e vista diferente do que se costuma ver e ouvir, é um espaço para personagens e testemunhas que não tiveram oportunidades de relatarem as suas experiências por conveniências ou por não terem oportunidade. Ai segue a primeira segunda versão:
No mar da galiléia, esse relato encontra-se na biblia, no evangelho de Marcos 4:35-41. Aqui segue uma versão, que só encanta e abrilhanta os feitos do Mestre Jesus, contada por José Saramago em "O evangelho segundo Jesus Cristo"

Acalmando a tempestade.
Ora, Jesus, lá na barca, vendo o desbarato que ia nas tripulações em redor, e que as ondas saltavam por cima da borda e alagavam tudo dentro, e que os mastros partiam levando-os pelos ares as velas soltas, e que a chuva caía em torrentes que só elas chegariam para afundar uma nave do imperador, Jesus, vendo tudo isso, disse consigo mesmo, não é justo que morram estes homens, ficando eu com vida,(...) e então, de pé, firme e seguro como se debaixo de si o suportasse um sólido chão, gritou, Cala-te e isto era para o vento, Aquieta-te, e isto era para o mar, palavras não eram ditas acalmaram-se o mar e o vento, as nuvens no céu apartaram-se e o sol apareceu como uma glória, que o é e sempre há de ser, ao menos para quem vive menos do que ele. Não se imagina o que foi a alegria naqueles barcos, os beijos, os abraços, os choros de alegria em terra, os daqui não sabiam por que tinha acabado assim tão súbito a tempestade, os de além, como ressuscitados, não pensavam senão na vida salva, e se alguns exclamavam, Milagre, milagre, naqueles instantes primeiros não se deram conta de que alguém tinha de ter sido o autor dele. Mas de repente fez-se o silêncio no mar, os outros barcos rodeavam o de Simão e André, e os pescadores todos olhavam Jesus, calados de assombro, apesar de o estrondo da tempestade tinham ouvido os gritos, Cala-te Aquieta-te, e ali estava ele, Jesus, o homem que gritara, o que ordenava aos peixes que saíssem da água para os homens, o que ordenava às águas que não levassem os homens para os peixes. Jesus tinha-se sentado no banco dos remadores, de cabeça baixa, com uma difusa contraditória impressão de triunfo e de desastre, como se, tendo subido ao ponto mais alto duma montanha, no mesmo instante começasse a melancolia e inevitável descida. Mas agora, ali postos em circulo, os homens esperavam uma palavra sua, não era bastante ter dominado o vento e amansado as águas, tinha de explicar-lhes como o pudera fazer um simples Galileu filho de carpinteiro, quando o próprio Deus parecia tê-los abandonado ao frio abraço da morte.
p.335 336